... “O primeiro tipo chamo de “pastores-lobos”. Pastores corrompidos. Alguns conscientemente, outros sinceramente enganados. Mas corrompidos na alma, na mente, no coração. Corrompidos no entendimento da verdade, na relação com o sagrado e o divino. Pastores de si mesmos. Homens que se utilizam da fé e do desespero alheios para alcançar seus próprios objetivos, servir aos seus próprios interesses, implementar sua visão particular, desenvolver seu projeto pessoal de poder, dinheiro e imoralidade de toda sorte (ou azar). Homens que atuam no ramo da religião, no segmento evangélico, mas que estão absolutamente distantes do Evangelho de Jesus Cristo, distantes de sua mensagem, seu espírito, ser caráter, seus propósitos, seus valores, seus conteúdos mais profundos. Oportunistas ou iludidos. Corrompidos do mesmo jeito.
O segundo tipo chamo de “pastores-ovelhas”. Aqueles são lobos vestidos de pastores. Estes são ovelhas vestidas de pastores. Cristãos sinceros e dedicados que jamais deveriam ter sido investidos de autoridade que acompanha a função pastoral. Ou deveriam ter recusado os insistentes apelos das outras ovelhas. Homens que pretendem servir a Deus, e o fazem com integridade e sinceridade ao longo dos anos, mas que nunca foram separados pelo Espírito Santo, isto é, homens aos quais o Espírito Santo não constituiu bisbos.
São dotados de boa vontade e capacidades. Experimentaram certo sucesso profissional, sempre foram bons contribuintes financeiros nas comunidades e até mesmo as dirigiam muito bem na ausência dos pastores (e até melhor, em muitos casos), mas sua contribuição era circunstancial, emergencial, e não vocação perene. Falta-lhes o carisma. Falta-lhes a autoridade divina. Faltam-lhes o coração e a alma de pastor. Falta-lhes a paixão. Faltam-lhes as vísceras pastorais. Receberam o cetro, Receberam o título. Receberam o diploma de bacharel. No entanto, não receberam a unção. Aquilo vem de baixo. Esta vem do alto. Não pode ser forjada, manipulada, tomada de assalto. Com se diz entre as ovelhas, estes são os que seriam bons crentes, mas preferem ser péssimos pastores.
O terceiro tipo chamo apenas de “pastores”. Foram chamados pelo Espírito Santo – vocacionados. Ouviram a Voz. Foram seduzidos, e seduzidos ficaram. O Senhor que chamou foi mais forte do que eles e prevaleceu. Carregam o estigma de Cristo e sofrem dores de parto pelos seus rebanhos, cumprem em sua própria carne o que resta dos sofrimentos de Cristo Jesus em favor da Igreja. Pesa sobre eles a preocupação por todas as igrejas, e quando alguém se enfraquece, eles ficam muito aflitos. Estes são os que servem a Deus com todas as forças da alma. Jamais seriam realizados e felizes fazendo qualquer outra coisa.
No entanto, na mesma intensidade com que se dedicam a Deus, são assolados pelas sombras de seu mundo interior ainda não totalmente resolvido, não suficientemente redimido, não completamente curado e parcialmente subjugado em obediência à autoridade de Cristo Jesus. São homens de lutas e dores. Experimentam a contradição dos anseios profundos de santidade, doação e autodoação, que convivem com o egoísmo arraigado, o pendor para o mal e o pecado, que os obriga a gritar: “Miseráveis somos, quem nos livrará deste corpo mortal?”. Como bem disse meu amigo, pastor e pastor de pastores, são homens que algumas vezes Deus os tem e, algumas outras, eles têm a Deus nos próprios termos e conveniências.
Apesar das contradições e angústias na alma, Deus sabe que eles o amam e conscientemente repetiriam com Dostoievski: “Caso me dissessem que Cristo não é verdade, eu diria: ‘Vai-te, verdade, pois tudo o que quero é Cristo’”. Deus os compreende mais do que eles mesmos. Deus os ama de um jeito diferente e os usa, apesar do que são, e em detrimento do que tentam ser.
Finalmente, há os pastores que nem sei ao certo como classificar. Talvez pudesse usar a palavra “iluminados”, mas ainda não sei se é a melhor maneira de descrever essa gente. São homens que romperam a linha que nivela os mortais. Pessoas equacionadas na alma, resolvidas, que vivem no patamar que a bíblia chama “plenitude do Espírito”, sendo esta plenitude não uma experiência eventual, mas um status perene, uma qualidade de ser que se consolidou. A diferença entre os “iluminados” e os pastores é que estes têm um ministério, e aqueles são o ministério...
… Os iluminados são diferentes. Eles já sabem o que são. E não estão mais ocupados ou preocupados em saber o que pensam do que fazem. Influenciam pela vida, e não pela obra – ou, se você preferir, sua vida é sua obra, e o conjunto da obra é maior do que qualquer obra particular.
Homens assim nos conduzem ao mistério e ao silêncio. Diante deles, percebemos a tolice do elogio, cuidamos das palavras e experimentamos um certo constrangimento como se eles soubessem o que se passa dentro de nós e das coisas erradas que fazemos escondidos. A sensação é a de que Deus conta tudo para eles, que olham para nós com aquela cara de misericórdia, acreditando que ainda chegaremos lá. São poucos. Mas estão espalhados por aí. Bem-aventurados os que tropeçam neles. Até porque eles jamais se interpõem em nosso caminho. Não se jugam dignos.
KIVITZ, Ed René. Outra Espiritualidade: fé, graça e resistência. São Paulo: Mundo Cristão, 2006.
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